Já se vai o tempo em que eu e uns amigos atravessávamos noites em claro desenhando debruçados sobre uma mesa a ouvir Nirvana, Alice in Chains, Bush etc. Início dos 90. Uns bons tempos. Eu era um idealista, lia pouca literatura e muito quadrinho – claro, há os quadrinhos-literatura, mas aqui falo de X-Men, Batman, Superman,Wildcats, Gen 13, umas coisas assim. Meu artista inspirador era um coreano chamado Jim Lee, que desenha ainda hoje para a DC Comics. Eu queria ser como ele. Desenhar como ele. Estudei durante pouco tempo, mas tudo o que sei ainda hoje sobre desenhar HQs eu aprendi junto com os amigos de então, nas madrugadas, ao som de grunge. Desnecessário dizer que minhas blusas eram xadrezes e minhas calças jeans tinham buracos na altura dos joelhos.Certa feita, num momento de pueril inspiração, criamos uma “editora”, a Sky Comics. A sede era na garagem da minha casa. Pusemos lá umas mesas e ficou combinado que cada um de nós (éramos uns seis ou sete membros, dentre “desenhistas”, “coloristas”, “argumentistas” e “roteiristas”) levaria suas revistas para compor o acervo. Como ninguém precisava se preocupar com trabalho e nossa única ocupação era a escola (ensino fundamental, acho), encontrávamo-nos quase que diariamente para desenhar. Os “trabalhos” que encontrávamos eram: ilustrar parede de bar, ilustrar trabalhos escolares, criar logomarca de padaria etc. Eu me esbaldava com o negócio. Quando a editora se dissolveu, em poucos meses, herdei todas as revistas.
Os amigos começaram todos a trabalhar; eu comecei muito tarde. Ainda desenhei por muito tempo, mas nunca profissionalmente. Um dia, na escola na qual estudava, peguei para ler, voluntariamente, um tal Dom Casmurro. Depois, Quincas Borba. Esses novos livros trouxeram novos amigos, que trouxeram outros livros. E hoje, depois de incontáveis livros, após as cadeiras de faculdade, eu sou muito mais cético do que idealista, mais enfadado do que inspirado. Ainda gosto de quadrinhos (Preacher, Sandman, Transmetropolitan), contudo desenhar tornou-se atividade rara, quase impossível. É o trade-off da intelectualização.

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